O melhor de cada Viagem : Buenos Aires



Era o Reveillon 2005/2006. Eu e Talita partimos para Buenos Aires e, no auge do Orkut, um grupo foi criado para brasileiros se encontrarem por lá. Assim, para a virada do ano, de duas nos transformamos em 4. A ideia era procurar uma tal festa que estava rolando em um hostel que, pelo site, parecia que era A FESTA. Pois bem; nos arrumamos, encontramos as meninas e juntas entramos no Taxi.
Eu era quem tinha arranjado o evento e estava meio tensa se seria uma boa opção. Afinal, entrar em uma furada no primeiro dia do ano não estava nos planos de ninguém. Porém, não precisei de muito tempo para virar toda a minha atenção para outra preocupação: chegar lá.
No site do hostel dizia que era de fácil acesso e que era só perguntar que todo mundo da região e/ou taxista sabia onde ficava, mas simplesmente N-I-N-G-U-É-M sabia. Voltamos ao hotel, pegamos o endereço exato e nada de encontrar! E agora parece bizarro mas lembrem-se que, naquela época, não existiam smartphones com internet e Google® maps!
Rodamos quase 1h até que o taxista disse: "- Digam-me onde querem descer que eu não vou rodar mais. Já são quase meia noite e preciso ir para casa 😞😞😞 ."
O carro ficou em um silêncio tumular: eu acabara com o réveillon de todo mundo.
Em um sopro de desespero e tentando salvar pelo menos o do taxista, eu disse para ele nos deixar em Puerto Madero - a área revitalizada da cidade com vários restaurantes que em algum momento lembrávamos que tínhamos cogitado a hipótese de ir.
Descemos e eram só restaurante com festas fechadas. Andávamos sem rumo nos aproximando das opções onde a área de dança era aberta pra tentar aproveitar "na aba" embora na seca e de barriga vazia. Rs.
Faltando (bem) poucos minutos para a virada, quando estávamos na Puente de la Mujer, três irlandeses começaram a falar conosco. Percebendo que éramos brasileiras nos disseram que estavam no Rio mas tinham comprado uma passagem de última hora pra BsAs para passar o réveillon e voltar. Perguntaram pra onde estávamos indo e contamos a nossa super saga arrancando-lhes algumas risadas. 
Seguimos andando e a tensão deu lugar a delícia de conhecer novas pessoas e novas culturas. John rapidamente se mostrou interessantíssimo contando suas experiências de já ter morado em São Paulo, estar em Barcelona e ir constantemente para o Malawi para concretizar as operações de compra de crédito de carbono de seus clientes em troca de instalações de fornos nas casas de famílias nesse país onde crianças morrem por problemas respiratórios por inalação de fumaça de carvão. Conversávamos e andávamos e eis que avistamos a antiga Sydney Opera House Opera Bay Club (foto horrível que ilustra esse post ), linda, com luzes, música, filas gigantescas de jovens sorridentes e felizes. Em 2' ficou claro para todos que aquela sim era A FESTA ( pelo menos para as pessoas com alguma grana que ficaram na cidade vazia de portenhos e lotada de brasileiros).
Bateu uma vontade e invejinha em todos mas a noção de que não conseguiríamos entrar (ingressos esgotados + $$$$ + fila) era tão grande que nem nos demos o trabalho de nos empolgarmos.
Porém, ah PORÉM, estávamos com John e cia. 
Olhando nossa cara de cachorro pedinte, ele olhou pra gente e perguntou : " - Vocês querem entrar?"
A gente respondeu mudando a cara para de dãããããã : " Claro!"
Ele estufou o peito ( sério... o poder da linguagem corporal ficou claro ali), foi em direção a entrada, chamou um dos organizadores, falou meia dúzia de palavras, virou pra gente , nos chamou e simplesmente o seguinte aconteceu: o segurança abriu a corda que organizava a fila e nos colocou pra dentro! Juro, me senti uma artista! Hahahahha
Dez minutos para a contagem regressiva. Estávamos eufóricos, excitados, felizes e agradecidos por não sabermos até agora onde era o bendito hostel, a bendita festa. Dançamos até amanhecer, interagimos e vibramos em uma energia tão boa que fez daquele réveillon um dos mais especiais que já vivi e o melhor da viagem para Buenos Aires.


Ps.: Eu, que fui definida por uma ex colega de trabalho (Monique) como desbravadora de lugares e pessoas, investi muito daquela noite em conhecer e aprender com John. Continuamos a ter contato durante anos com dezenas - talvez centenas - de emails trocados e sempre foi muito prazeroso descobrir as diversas facetas daquele Irlandês-cidadão-do-mundo. Nos reencontramos, já no Rio, em um outono, 1 ou 2 anos depois. Em dezembro de 2016, mais de 10 anos depois, novamente e pela última vez. Nos desentendemos virtualmente e guardo até hoje suas mensagens desconcertantes e com uma viceral honestidade. Mas ele continua assim, tendo minha admiração e respeito. Morando atualmente em Lisboa, quem sabe eu apareça por lá, esbarre novamente com ele e ele tope dividir um pastel de Belém e mais de suas histórias sempre fascinantes comigo? E finalmente me conte que diabos ele falou para aquele cara que nos deixou entrar nA FESTA; segredo que ele guarda até hoje a 7 chaves.




Comentários